A única foto conhecida do misterioso Phileas Gage

A única foto conhecida do misterioso Phileas Gage

Encontrar a imagem de alguém de que não se conhecia o rosto é sempre emocionante. Mas neste caso trata-se do rosto de Phineas Gage, a personagem que fascinou durante anos os cientistas em todo o mundo, mas a dimensão desta história é muito maior.

Um par de fotógrafos de Massachusetts descobriu em sua casa um daguerreótipo com a única imagem conhecida deste trabalhador dos caminhos de ferro dos Estados Unidos cujo cérebro foi trespassado por uma barra de aço em 1848.
O interessante deste caso, e se tornou verdadeiramente espantoso na história da medicina, foi que Phineas prosseguiu a sua vida com o lóbulo frontal desfeito, e mudou fortemente a sua personalidade. Pela primeira vez havia provas palpáveis de que uma determinada área do cérebro controla certas características da pessoa, como a amabilidade ou a impaciência.
Desde meados do século XIX, o daguerreótipo passou de mão em mão até chegar a Jack e Beverly Wilgus. Estes fotógrafos tiveram-no em casa durante 30 anos pensando que se tratava de um baleeiro com um arpão na mão.
Por acaso, um especialista anónimo deu uma vista de olhos na foto, e descobriu tratar-se do célebre Phineas Gage e que o ferro na mão não era um arpão, mas a barra de ferro que lhe tinha trespassado a cabeça.
Intrigados, os Wilgus foram à Escola Médica de Harvard, onde se encontra conservado um molde da cara de Gage e comprovaram que as características coincidiam ponto por ponto com as do homem na imagem.
Também comprovaram que a barra de aço que aparece no daguerreótipo é idêntica à que se encontra no museu. A descoberta é tão interessante para o mundo da neurociência que foi publicada no “The Journal of the Neurosciences”.

A história de Phineas Gage foi a seguinte:
Em 13 de Setembro de 1848, um terrível acidente aconteceu nas obras do caminho de ferro nos arredores de Cavendish, Vermont. Após uma explosão acidental, uma barra de ferro saiu disparada e trespassou o crânio de um dos trabalhadores. Todos temeram o pior, mas após alguns minutos o jovem trabalhador já havia recuperado a consciência e até falava.
Aparentemente, tinha acontecido um milagre, mas apenas o tempo iria permitir verificar as surpreendentes sequelas.
Phineas Gage trabalhava na construção do caminho de ferro Rutland & Burlington. Phineas e a sua equipa estavam encarregues de abrir um troço nas rochas no percurso do trajecto do futuro caminho de ferro com o uso de explosivos. Como em qualquer outro dia, era Phineas que dizia onde abrir os buracos na rocha, e quanta pólvora colocar um cada um deles. Primeiro colocava a pólvora, o detonador e finalmente a areia. Depois compactava a mistura com uma barra de metal.

Mas nesse dia fatídico, Phineas distraiu-se e esqueceu-se de colocar a areia antes de introduzir a barra. Sem a areia, a barra bateu na pedra e causou uma faisca que provocou a explosão da pólvora Eram 4h30 da tarde, quando a barra de metal saiu disparada e atravessou a cabeça do jovem capataz, na altura com apenas 25 anos. A barra com um metro de comprimento, entrou pela face esquerda e saiu pela parte superior do crânio.
Foi tal a potência da explosão, que a barra caiu a 30 metros de distância. Todos temeram o pior, mas Phineas não morrera. Permaneceu inconsciente por um curto período de tempo, e mesmo após alguns minutos já caminhava sem problemas nem necessidade de ajuda, e foi sentar-se numa carroça, onde foi conduzido pelo colegas que o levaram à cidade mais próxima para receber cuidados médicos.

Apesar de não ter sido o primeiro a assisti-lo, o Dr. John Martin Harlow tomou conta do caso. Numa primeira análise, e apesar de ser um homem acostumado à cirurgia militar, Harlow descreveu a ferida como “tremenda”. A cama onde Phineas estava deitado e o próprio Phineas estavam empapados em sangue devido à hemorragia.
Harlow afirmou que o paciente suportava as dores que uma firmeza heróica, e parecia estar totalmente consciente. Conseguiu deter a hemorragia e evitou que a infecção se estendesse. Mas apesar dos cuidados proporcionados a Gage, a recuperação foi longa e difícil.
O Dr. Harlow descreveu os progressos na recuperação de Gage: No dia 7 de Outubro voltou a caminhar. No dia 20, descrevia o seu comportamento como “muito infantil”, embora com as “paixões animais de um homem forte”. Após o acidente raramente falava a não ser que alguém o interpelasse, e apenas respondia com monossílabos.
Em meados de Novembro, Gage começou a sentir-se muito melhor e já dizia não sentir dores na sua cabeça. Ao mesmo tempo, começou a mostrar um desejo forte de voltar para junto da sua família e começou a tornar-se “difícil de controlar pelos seus amigos”. Harlow estava convencido de que se se controlasse, Gage poderia recuperar-se.
Aparte uma perca de visão no olho esquerdo e uma ligeira desfiguração e paralisia na sua cara, a recuperação física de Gage em Abril de 1849 parecia estar completa. No entanto, Gage foi incapaz de recuperar o seu posto de encarregado. Segundo Harlow, Gage tinha mudado. Antes do acidente era uma pessoa trabalhadora , responsável, estimada e valorizada, tanto por subordinados como pelos seus chefes, que o consideravam “o capataz mais eficiente e capaz”. Mas esses mesmos chefes, depois do acidente “consideravam a sua mudança de carácter tão radical que não lhe voltaram a dar o seu antigo posto”.

Em 1868, 20 anos depois do acidente, Harlow descrevia com mais detalhe as mudanças psicológicas de Gage, e que, segundo ele, o haviam impedido, entre outras coisas, de recuperar o seu antigo emprego como capataz. Segundo Harlow “o equilíbrio entre as suas faculdades intelectuais e os seus instintos animais, parecia ter sido destruído”.

Gage tornou-se inconstante, irreverente, blasfemo e impaciente. Por vezes era obstinado quando contrariado e mostrava-se caprichoso. A mãe de Gage disse a Harlow que Gage conseguia entreter os seus sobrinhos com histórias fantásticas sobre as suas aventuras, que eram todas imaginadas.
Gage desenvolveu um afecto especial pelos animais e crianças, apenas superado pelo seu apego à “sua” barra de ferro, a que se referia como “o meu ferro”, e que se tornou na sua companhia inseparável durante o resto da vida.

Tão radical foi a sua mudança que os seus amigos e conhecidos o chamavam de “no longer Gage” (já não é Gage). Phineas já não era a mesma pessoa e era muito mais agressivo. Diz-se que depois do acidente foi incapaz de manter um trabalho por muito tempo, pois abandonava o trabalho e mantinha lutas constantes com os colegas.

Perante a impossibilidade de voltar ao antigo trabalho, Gage, a sua ferida e a sua barra de ferro tornaram-se uma atracção no Museu Americano de P.T. Barnum em Nova Iorque, com o qual visitaria as mais importantes cidades da Nova Inglaterra.
Mais tarde, Gage encontraria trabalho nuns estábulos em New Hampshire, para mais tarde viajar até Valparaíso, no Chile, onde se tornaria condutor de diligencias. Durante a sua estadia no Chile, a sua saúde começou a piorar e em 1859 decidiu voltar a São Francisco para junto da família.
Gage necessitou de vários meses para recupera-se da longa viagem de retorno, o que em conjunto com a enfermidade o tinha deixado muito débil.

Uma vez recuperado, Gage trabalhou numa granja em Santa Clara. Mas apenas uns meses depois, em Fevereiro de 1860, teve a primeira de uma série de violentas convulsões, “inquestionavelmente epilépticas”.
Os ataques foram gradualmente crescendo em intensidade e em 18 de Maio, Gage decidiu voltar a casa de sua mãe, onde sofreria outras quantas séries. No dia 21 de Maio de 1860, os ataques agravaram-se e Gage não resistiu, morrendo nesse mesmo dia. O Dr. Harlow não soube da morte até 1866. Foi então que se começou a corresponder com a família.

Foi por seu pedido que o corpo de Gage foi exumado para recolher a sua caveira e o “seu” ferro. Após estudar cuidadosamente tanto a caveira de Gage como a barra de ferro, Harlow deixou-as no Museu Warren da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, onde ainda hoje permanecem.
Mas… como tinha podido sobreviver à ferida e viver ainda todo este tempo? Harlow argumentou que teria sido devido a quatro factores: Uma capacidade de resistência e uma vontade dificilmente inigualáveis. A forma da barra de ferro, que não provocou uma comoção cerebral duradoura. A abertura provocada pela entrada a barra de ferro que permitiu drenar a infecção. E por ultimo, segundo Harlow, que a parte do cérebro atravessada pela barra era a mais adequada para suportar uma ferida daquele tipo.
Com os conhecimentos actuais, certamente que uma ferida no cérebro seria fatal, mas também é certo que uma barra com uma forma pontiaguda poderia ter reduzido os danos. Além disso, parece que todos os vasos sanguíneos importantes se salvaram. Sem duvida, a quantidade de tecido do cérebro destruída terá sido considerável, não só pelo trauma inicial como na infecção posterior.

Curiosa esta historia… e maravilhosa a única foto que nos mostra o verdadeiro rosto de Phileas Gage.

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